
Por que forçar uma cena se ela já foi repetida mil vezes?
A bilheteria é sempre a mesma, os aplausos tem a mesma cadência e o mesmo som a anos.Todos já conhecem as falas, os gestos, cada pausa e respiração antes do bordão que é sempre atirado no momento cronometrado em que o público, que para evitar o desamor se permite adestrado, faz de conta fingir encanto e aplauso, quando na verdade não tem ninguem ali pra aplaudir.
Se tem alguem no palco eu não percebi, mesmo sabendo que fisicamente existe alguem que está lá, mas que não consegue me emocionar, me fazer acreditar, me seduzir...
Acalma-me saber que pelo menos a mágica da essência permanece intacta em mim e que o balet encenado, desconexo, descompacto não me invadiu e muito menos chagas em mim ilustrou. Pois apesar de tanto, meu coração permanece limpo (as vezes turvo, como as primeiras aguas de chuva), a mente forte, o corpo flexivel, os ouvidos discernidos, a lingua fraca e não menos afiada, as mãos hábeis e os olhos atentos ao show que não consegue sair e se sobrepor ao palco, a luz, a interpretação mediana e deliciosamente ao medo de que a qualquer momento a cortina não volte a subir.
Não saio desta imensa cena em que plateia, palco, luz, elenco e todo resto estão interligados. Pago caro por bilhetes assim e vou escolher minha hora nesta obra, não interessa que seja dentro do clichê de "incio, meio e fim".
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